Última atualização em 09/07/2026, 7h25min por A Trombeta
REPORTAGEM ESPECIAL | 9 DE JULHO
Uma história exclusiva de A Trombeta preserva a memória do combatente fernandoprestense Francisco da Cunha Villela Sobrinho, cuja trajetória ajuda a compreender a participação do interior paulista na Revolução Constitucionalista de 1932
No calendário paulista, o 9 de Julho é mais do que um feriado. A data recorda a Revolução Constitucionalista de 1932, o maior conflito armado ocorrido em território brasileiro durante o século XX. Por 87 dias, entre 9 de julho e 2 de outubro daquele ano, milhares de paulistas deixaram suas casas para enfrentar as tropas do governo federal em defesa da convocação de uma nova Constituição para o país.
Embora São Paulo tenha sido derrotado militarmente, o movimento acabou exercendo forte pressão política sobre o governo provisório de Getúlio Vargas, que, no ano seguinte, convocou eleições para a Assembleia Constituinte, culminando com a promulgação da Constituição de 1934.
Mais de noventa anos depois, os debates sobre a Revolução Constitucionalista permanecem vivos entre os historiadores. Há consenso de que o movimento defendia o retorno da ordem constitucional, mas também é reconhecido que parte das lideranças paulistas buscava recuperar a influência política perdida após a Revolução de 1930, que encerrou a chamada República Velha. Como observa o historiador Boris Fausto, esses dois elementos, a defesa da Constituição e os interesses políticos regionais, caminharam juntos naquele momento da história.
Mas a Revolução Constitucionalista não foi feita apenas por governadores, militares ou líderes políticos. Ela também foi construída por milhares de cidadãos comuns, vindos das cidades do interior paulista. Entre eles estava um homem simples, morador do então Bairro Tanquinho, cuja história permanece viva na memória de seus descendentes.
O chamado da guerra
Francisco da Cunha Villela Sobrinho era lavrador, casado com Sebastiana Damasceno Villela e pai de duas meninas quando decidiu integrar as fileiras constitucionalistas.
Como tantos outros paulistas, atendeu ao chamado lançado em julho de 1932. O movimento mobilizou empresários, estudantes, profissionais liberais, trabalhadores rurais e urbanos. Calcula-se que aproximadamente 200 mil pessoas tenham participado do esforço de guerra, entre combatentes e voluntários que atuaram na produção de armas, alimentos, uniformes e assistência aos soldados.
A campanha também contou com uma impressionante mobilização popular. Pela iniciativa conhecida como “Ouro para o Bem de São Paulo”, milhares de famílias doaram alianças, joias, relógios e moedas para financiar a compra de armamentos, enquanto fábricas adaptavam suas linhas de produção para fabricar capacetes, munições e equipamentos militares. Foi nesse contexto que Francisco embarcou de trem rumo ao desconhecido.
Segundo o relato de seu filho, José Villela Sobrinho, conhecido como “Nego Villela”, outro morador da região, Antônio Ravazzi, também seguiu viagem, mas retornou antes de chegar às frentes de combate. A primeira parada foi em Araraquara, onde Francisco recebeu uniforme, um fuzil e treinamento básico. Em seguida, foi enviado para Pirassununga, passando a integrar uma das unidades constitucionalistas que seguiriam para as linhas de frente.
A família nunca soube exatamente em qual setor ele combateu. Sabe-se, porém, que as tropas reunidas naquela região foram distribuídas para alguns dos principais teatros da guerra, entre eles as frentes do Vale do Paraíba e da divisa com Minas Gerais, onde ocorreram intensos combates de trincheiras e sucessivos ataques da aviação federal.
A guerra vivida por Seu Chico
Décadas depois, Francisco ainda contava aos filhos episódios que jamais saíram de sua memória. Um deles foi o ataque aéreo que quase lhe custou a vida. Os soldados estavam exaustos, enfrentando havia dias a fome, o cansaço e a escassez de suprimentos.
Em certa ocasião, o comandante informou que um caminhão se aproximava carregado de alimentos e outros mantimentos. A notícia renovou o ânimo dos homens, mas a esperança durou poucos minutos. Quando o veículo estacionava, um avião das tropas federais surgiu no céu e iniciou um intenso ataque de metralhadora. Os soldados correram para as trincheiras e para as barricadas de sacos de areia que eles próprios haviam construído. Pouco depois, uma bomba atingiu o caminhão, provocando uma explosão que espalhou destruição por toda a área.
Quando o bombardeio terminou e Francisco deixou o abrigo, encontrou um cenário que descrevia simplesmente como “uma carnificina”. Muitos companheiros haviam morrido.
O pequeno grupo de sobreviventes ficou isolado, sem alimentos, sem comunicação e sem comando. Escondidos em um capão de mato, aguardaram a chegada da noite para tentar escapar. Francisco estava acompanhado apenas por outro combatente, natural de Pirangi. Durante vários dias caminharam escondidos, atravessando matas e fazendas, até receberem abrigo de um casal de agricultores, que lhes ofereceu alimento e tratou seus ferimentos.
Ainda vestiam os uniformes paulistas. Se fossem encontrados por tropas federais, correriam o risco de serem presos ou até executados como combatentes inimigos. Ao mesmo tempo, caso retornassem sem ordens às linhas constitucionalistas antes do encerramento oficial dos combates, poderiam ser confundidos com desertores.
Somente quando a guerra terminou, já em outubro de 1932, conseguiram a ajuda de um morador para comprar roupas civis. Só então iniciaram a viagem de volta para casa. (matéria continua após a foto)

Foto: Arquivo da família Villela
A espera que parecia não ter fim
Enquanto isso, no Bairro Tanquinho, a família vivia dias de profunda angústia. As notícias haviam deixado de chegar havia semanas, e Sebastiana já acreditava que o marido estivesse entre os mortos da guerra.
Foi nesse período que o casal enfrentou outra tragédia. Uma das filhas faleceu antes que Francisco pudesse regressar, impedindo-o de se despedir da menina.
Quando finalmente desembarcou na estação ferroviária de Fernando Prestes, trazia apenas uma pequena matula, algumas cicatrizes e as lembranças de uma guerra que o acompanhariam pelo resto da vida. Da estação, seguiu a pé até o Tanquinho, onde foi recebido com emoção por familiares, amigos e vizinhos, que já não acreditavam em seu retorno.
Depois da guerra
Como aconteceu com tantos ex-combatentes, Francisco retomou a vida simples no campo. Continuou trabalhando como lavrador e, algum tempo depois, adquiriu um sítio em Fernando Prestes, propriedade que permanece com seus descendentes.
Ao lado de Sebastiana, constituiu uma grande família. Além das duas primeiras filhas, o casal teve outros sete filhos.Francisco da Cunha Villela Sobrinho faleceu em 5 de junho de 1987, aos 81 anos, vítima de causas naturais.
Um nome que merece ser lembrado
As grandes narrativas da história costumam destacar presidentes, generais e batalhas. Mas a Revolução Constitucionalista também foi escrita por homens simples, como Francisco da Cunha Villela Sobrinho, que trocaram temporariamente a enxada pelo fuzil e deixaram suas casas acreditando defender um ideal.
Mais de nove décadas depois, sua trajetória continua viva graças à memória preservada por seus filhos, netos e familiares.
Ao recordar o 9 de Julho, Fernando Prestes também presta homenagem a um de seus próprios combatentes, lembrando que a história de um país também é construída por pessoas comuns e que cabe às comunidades manter vivos os nomes daqueles que fizeram parte dela.
O elo perdido de Pirangi
A pesquisa sobre a trajetória de Francisco da Cunha Villela Sobrinho, no entanto, não termina aqui. Durante a apuração desta reportagem, A Trombeta conseguiu identificar o combatente de Pirangi que acompanhou Seu Chico na fuga após o ataque aéreo e com quem percorreu matas e fazendas até o fim da guerra. A história desse companheiro de armas, e o caminho percorrido pelos dois durante aqueles dias dramáticos, será tema de uma próxima reportagem especial. Constitucionalista. Quem era esse homem e como os dois conseguiram sobreviver após o ataque que dizimou parte da companhia serão revelados em uma próxima reportagem.
Imagem de capa: Gerada por IA
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