Última atualização em 31/10/2026, 21h26min por A Trombeta
Sanitarista Rodrigo Contrera Ramos explica como esses animais se adaptaram às cidades, alerta para os perigos das picadas e orienta sobre as medidas mais eficazes de prevenção.
Com a chegada do período de temperaturas elevadas e chuvas mais frequentes, aumenta também a preocupação com o aparecimento de escorpiões nas áreas urbanas. Presentes em quintais, terrenos, redes de esgoto e até mesmo no interior de residências, esses animais encontraram nas cidades condições favoráveis para sobreviver e se reproduzir. O problema exige atenção da população e ações permanentes do poder público, especialmente diante dos riscos que as picadas representam para crianças.
Em entrevista ao Jornal A Trombeta, o sanitarista Rodrigo Contrera Ramos, formado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), ex-coordenador de Vigilância em Saúde de Araraquara e com experiência no controle integrado de fauna sinantrópica nociva, esclarece dúvidas sobre o comportamento dos escorpiões, os fatores que favorecem sua proliferação e as medidas necessárias para prevenir acidentes.
Além da experiência na saúde pública, Rodrigo Contrera Ramos atua na realização de cursos e treinamentos sobre manejo e controle de escorpiões, desenvolvendo trabalhos de inspeção em ambientes residenciais, comerciais e industriais, atendendo tanto a órgãos e entidades públicas quanto à iniciativa privada. Sua atuação envolve a identificação de focos, avaliação de riscos e orientação sobre medidas de prevenção e controle desses animais.
Segundo o especialista, as temperaturas mais altas favorecem a atividade desses animais, enquanto as chuvas podem provocar seu deslocamento para lugares mais secos, incluindo o interior das casas. Ele ressalta, entretanto, que o aumento de aparecimentos durante o período chuvoso não significa necessariamente uma explosão populacional.
“O aumento dos aparecimentos durante as chuvas não significa necessariamente que a população de escorpiões aumentou naquele momento. Muitas vezes, significa que os animais foram obrigados a abandonar seus abrigos”, explica.
Cidades oferecem abrigo e alimento
Os escorpiões são aracnídeos, pertencentes ao mesmo grupo das aranhas, e desempenham uma função ecológica importante como predadores de outros invertebrados. No interior paulista, duas espécies merecem atenção especial: o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus) e o escorpião-marrom (Tityus bahiensis).
O escorpião-amarelo se destaca pela importância médica e pela capacidade de adaptação aos ambientes urbanos. De acordo com Rodrigo, as cidades oferecem três condições fundamentais à sobrevivência desses animais: abrigo, alimento e proteção contra determinados predadores.
As redes de esgoto são exemplos de ambientes favoráveis. Nelas, os escorpiões encontram umidade, esconderijos e abundância de baratas, uma de suas principais fontes de alimento.
O especialista explica que o crescimento urbano, associado a problemas de saneamento, drenagem e manejo de resíduos, contribuiu para a expansão desses animais.
As instalações subterrâneas também podem funcionar como caminhos de acesso às edificações. Ralos, caixas de inspeção, tubulações e passagens de conduítes estão entre os pontos que merecem atenção. (texto continua após a galeria)


Uma casa limpa também pode ter escorpiões
Uma das principais dúvidas da população diz respeito à presença desses animais em residências aparentemente livres de condições favoráveis à sua proliferação.
Segundo Rodrigo, é equivocada a ideia de que escorpiões aparecem somente em imóveis sujos ou terrenos abandonados.
“Uma residência pode estar extremamente limpa e organizada e, ainda assim, apresentar escorpiões”, esclarece.
Isso acontece porque os animais podem chegar pelas redes subterrâneas e alcançar o interior dos imóveis por ralos, tubulações e outras aberturas.
A limpeza continua sendo fundamental para eliminar possíveis abrigos e reduzir a presença de baratas, mas precisa ser acompanhada de medidas estruturais, como vedação de frestas e proteção dos pontos de entrada.
O sanitarista também esclarece que encontrar um escorpião não significa obrigatoriamente a existência de uma infestação. Entretanto, a ocorrência deve ser investigada, especialmente quando há aparecimentos repetidos.
Escorpião foi encontrado no 13º andar de edifício
Durante sua atuação profissional na Vigilância em Saúde de Araraquara, Rodrigo acompanhou situações que demonstram a capacidade de adaptação dos escorpiões a diferentes ambientes.
Uma delas foi o aparecimento de um exemplar no quarto de um jovem, no 13º andar de um edifício.
O episódio contraria a crença de que esses animais estejam restritos a quintais, terrenos baldios e construções térreas.
Segundo o especialista, os escorpiões podem alcançar diferentes pavimentos por meio das instalações e estruturas prediais.
Outra experiência relatada por ele envolve inspeções e capturas noturnas no Cemitério São Bento, em Araraquara, onde foi possível observar a importância das frestas e estruturas que oferecem abrigo aos animais.
Os escorpiões possuem hábitos predominantemente noturnos, mas podem ser encontrados durante o dia quando são desalojados por chuvas, obras ou movimentação de materiais.
Também conseguem escalar superfícies rugosas e subir por tecidos, como cortinas e roupas de cama que estejam em contato com o chão.
Reprodução sem machos favorece proliferação
Uma característica que torna o escorpião-amarelo especialmente preocupante é sua capacidade de reprodução por partenogênese, processo no qual as fêmeas conseguem gerar descendentes sem a participação de machos.
Rodrigo explica que uma fêmea pode produzir aproximadamente 20 filhotes por ninhada, embora o número varie.
Em condições favoráveis, os descendentes podem alcançar a maturidade reprodutiva em cerca de um ano.
Assim, um único exemplar introduzido em um ambiente com alimento abundante e abrigos adequados pode dar origem a novas gerações.
O sanitarista ressalta que o potencial reprodutivo não significa que todos os filhotes sobreviverão, mas ajuda a explicar a expansão desses animais e a necessidade de ações permanentes de controle.
Dedetização pode não resolver o problema
Outro alerta importante diz respeito ao uso indiscriminado de inseticidas, frequentemente considerados pela população como a principal solução para combater escorpiões.
Segundo Rodrigo, a aplicação de produtos químicos não é recomendada como estratégia rotineira de controle desses animais.
Isso porque os escorpiões conseguem permanecer protegidos em frestas, galerias e outros abrigos, dificultando o contato com os produtos. Determinadas substâncias também podem provocar seu desalojamento e deslocamento para outros ambientes.
“O principal equívoco é acreditar que a aplicação de veneno representa a solução definitiva”, afirma.
O especialista defende a adoção de medidas integradas, envolvendo inspeção dos imóveis, eliminação de abrigos, redução das fontes de alimento e instalação de barreiras físicas.
O controle de baratas, especialmente por métodos direcionados e tecnicamente indicados, também é importante, já que esses insetos representam uma das principais fontes de alimentação dos escorpiões urbanos.
Rodrigo esclarece ainda que, embora galinhas e outros animais possam consumir escorpiões, sua presença não representa uma solução eficaz para o controle urbano.
Crianças apresentam maior risco de complicações
Os acidentes envolvendo escorpiões exigem atenção imediata, especialmente quando as vítimas são crianças.
O veneno possui substâncias que interferem no funcionamento do sistema nervoso e podem provocar desde manifestações locais, como dor intensa, até complicações cardiovasculares e respiratórias.
Entre os sinais de gravidade estão vômitos repetidos, suor excessivo, salivação intensa, agitação, alterações da pressão arterial e dificuldade para respirar.
Segundo o sanitarista, crianças menores de 10 anos apresentam maior risco de desenvolver manifestações graves, especialmente pela relação entre a quantidade de veneno inoculada e a massa corporal.
A orientação é procurar atendimento médico imediatamente após uma picada, mesmo quando inicialmente existe apenas dor no local.
Enquanto aguarda atendimento, a vítima pode lavar a região com água e sabão. Não se deve fazer torniquete, cortar o local, sugar o veneno ou aplicar substâncias caseiras.
Nem todos os acidentes exigem aplicação de soro antiescorpiônico. A necessidade depende da gravidade do quadro e deve ser avaliada pela equipe médica.
Prevenção exige cuidados permanentes
Para reduzir os riscos de aparecimento de escorpiões nas residências, Rodrigo destaca três medidas fundamentais: impedir o acesso dos animais, eliminar possíveis abrigos e controlar suas fontes de alimento.
Entre as recomendações estão:
- Instalar telas ou dispositivos protetores em ralos;
- Vedar frestas em paredes, rodapés e muros;
- Proteger passagens de tubulações e conduítes;
- Instalar veda-portas;
- Evitar acúmulo de entulhos, madeira, telhas e restos de poda;
- Manter o lixo corretamente acondicionado;
- Adotar medidas adequadas para controlar baratas;
- Examinar roupas, toalhas e calçados antes de utilizá-los;
- Evitar que roupas de cama encostem no chão.
Ao encontrar um escorpião, o morador deve evitar contato direto, afastar crianças e animais domésticos e comunicar o serviço municipal responsável pelo controle de animais sinantrópicos.
A captura deve ser realizada preferencialmente por profissionais capacitados, com equipamentos apropriados.
Poder público também tem responsabilidade
O especialista ressalta que o enfrentamento do problema não depende exclusivamente dos moradores.
Para ele, os municípios precisam desenvolver programas permanentes de vigilância e controle, com equipes capacitadas, planejamento e acompanhamento das ocorrências.
Entre os locais que merecem atenção estão cemitérios, depósitos de materiais de construção, madeireiras e ambientes com condições favoráveis à presença de escorpiões.
Também recomenda inspeções preventivas em escolas, creches, hospitais e instituições que abrigam pessoas vulneráveis.
Rodrigo considera importante que os serviços municipais investiguem as causas das ocorrências, identifiquem possíveis rotas de acesso e orientem os moradores sobre as medidas necessárias.
“O controle não pode acontecer somente depois de um acidente. Precisa ser contínuo, preventivo e orientado por critérios técnicos”, defende.
Informação é uma das principais formas de prevenção
Para os moradores de Fernando Prestes, do distrito de Agulha e das demais cidades da região, Rodrigo reforça que o período de calor e chuvas exige atenção redobrada, mas os cuidados devem ser mantidos durante todo o ano.
Além de medidas simples nas residências, considera fundamental ampliar a educação em saúde, combater informações equivocadas e estimular a participação da população nas ações preventivas.
“Aos moradores de Fernando Prestes, Agulha e toda a região, reforço que o controle dos escorpiões é uma responsabilidade compartilhada entre população e poder público”, conclui.
Imagem de capa: Rodrigo Contrera Ramos e um exemplar de escorpião “amarelo” conservado em álccol que usa em seus treinamentos.
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