Babel em Wi-Fi

Babel em Wi-Fi

Última atualização em 07/06/2026, 6h39min por A Trombeta

Por José Saul Martins*

Vivemos tempos modernos. O celular sabe quantos passos demos, o relógio mede até a qualidade do nosso sono, mas a humanidade desaprendeu a usar o velho equipamento entre as orelhas: o cérebro.

Hoje, a verdade deixou de ser verdade. Virou torcida organizada. Não importa mais o fato. Importa quem falou. Se o “meu lado” disser que chuva molha, o outro sai na rua sem guarda-chuva por asnice, teimosia, patriotismo, fanatismo, burrice… entenda como quiser. Se o adversário disser que vacina protege, imediatamente surge um especialista em simpatia, chá de boldo e alinhamento cósmico pelo YouTube.

E ninguém pesquisa mais nada. Pesquisa dá trabalho. O povo prefere terceirizar o cérebro.

Antes, as pessoas mentiam escondidas. Hoje mentem em alta definição, com trilha sonora dramática e legenda em caixa alta:

“URGENTE!!! COMPARTILHE ANTES QUE APAGUEM!!!”

Quanto mais absurda a notícia, maior a chance de viralizar. Descobriram que o povo não lê nem bula de remédio; imagine verificar fonte.

E quanto mais polarizado fica o mundo, mais fácil fica enganar todo mundo. Basta jogar a culpa no outro lado. Se algo deu errado, é culpa da oposição. Se apareceu denúncia, é armação do concorrente. Se a mentira favorece minha turma, muita gente compartilha sem nem terminar de ler. O importante já não é saber se é verdade. É saber contra quem aquilo atira.

Criou-se então uma espécie de Torre de Babel digital. Todo mundo fala. Ninguém escuta. Cada grupo criou seu próprio idioma emocional.

Quando um diz “liberdade”, o outro entende “golpe”.
Quando um diz “justiça”, o outro ouve “perseguição”.
Quando um diz “ciência”, aparece alguém respondendo com um vídeo gravado dentro de um carro.

E talvez o mais impressionante seja a velocidade da indignação seletiva.

O cidadão passa vinte anos ignorando corrupção, mentira e canalhice. Mas basta o adversário respirar errado que ele surge na internet vestido de paladino da moral universal.

Há quem compartilhe fake news pela manhã, publique versículo bíblico à tarde e reclame da falta de honestidade à noite. Tudo sem sentir qualquer desconforto espiritual. A consciência hoje trabalha em home office.

A mentira moderna não precisa convencer; só precisa cansar a verdade.

Talvez seja esse o grande castigo contemporâneo: não fomos condenados a falar línguas diferentes, como em Babel. Fomos condenados a ouvir apenas aquilo que confirma nossas paixões.

E assim seguimos, cada um carregando sua verdade portátil no bolso, dentro de um aparelho de seis polegadas, jurando possuir senso crítico enquanto repassa áudio de um desconhecido chamado “MisterVerdade92”.

No fim, a humanidade construiu a maior rede de comunicação da história… apenas para não se comunicar.

  • José Saul Martins é jornalista diretor e criador do jornal e site A Trombeta

Imagem de capa: Pixabay – Meramente ilustrativa

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