Entre linhas e recomeços: professora de Agulha encontrou nos amigurumis um novo sentido após a pandemia

Entre linhas e recomeços: professora de Agulha encontrou nos amigurumis um novo sentido após a pandemia

Última atualização em 30/06/2026, 5h48min por A Trombeta

Há histórias que começam de maneira inesperada. A da professora e artesã Mara Rubia Monfre, moradora do distrito de Agulha, em Fernando Prestes, nasceu em um dos períodos mais difíceis da pandemia de Covid-19 e encontrou, entre linhas, agulhas e pontos de crochê, um caminho para transformar dor em criatividade.

Tudo começou quando Mara acompanhou uma tia ao hospital para visitar um primo internado por complicações da doença. Após a visita, passaram pela casa de um familiar, onde conheceu uma médica que produzia amigurumis como forma de aliviar a tensão da rotina hospitalar.”Ela me contou que, quando fazia aqueles bichinhos, conseguia esquecer por alguns momentos todos os problemas vividos no hospital. Fiquei encantada”, relembra.

No dia seguinte, o primo faleceu. A lembrança daquele encontro, no entanto, permaneceu viva. Sem querer passar os dias assistindo às notícias sobre a pandemia, Mara decidiu pesquisar na internet como eram feitos aqueles pequenos bonecos. Encontrou vídeos, receitas e começou a aprender sozinha. Desde então, nunca mais parou.

O primeiro trabalho foi um simples urso branco, presenteado à filha de uma amiga. De lá para cá, a professora aperfeiçoou a técnica e hoje produz personagens, animais e objetos personalizados que conquistam clientes de diferentes regiões do país.

Mara em seu ateliê no distrito de Agulha confeccionando amigurumis



Uma arte japonesa feita com carinho

Apesar de muita gente associar os amigurumis ao tricô, a técnica é, na verdade, uma modalidade de crochê de origem japonesa. O nome resulta da união das palavras ami (crochê ou trançado) e nuigurumi (bicho de pelúcia), dando origem aos famosos bonecos tridimensionais confeccionados artesanalmente.

Cada peça é produzida com pontos cuidadosamente contados, utilizando enchimento em fibra, olhos com travas de segurança e costuras praticamente invisíveis. Dependendo do tamanho e da complexidade do personagem, um único amigurumi pode exigir até dois dias de trabalho. “Todo amigurumi é um desafio. A gente nunca sabe se vai conseguir exatamente o resultado que imaginou.”

Criatividade que ganha forma

Embora utilize receitas adquiridas ou encontradas em vídeos especializados, Mara gosta de adaptar modelos, modificar tamanhos, criar roupas diferentes e combinar partes de projetos distintos para dar personalidade às encomendas.

Entre os trabalhos mais marcantes está uma encomenda muito especial: reproduzir toda a família de uma menina chamada Luiza. Foram 15 bonecos representando pais, avós e demais familiares próximos. “Foi um trabalho enorme, mas também um dos mais emocionantes que já fiz.”

Ela conta que a sensação de concluir cada peça é sempre recompensadora. “É gratificante olhar para o resultado e pensar: ‘Nossa, esse cavalo realmente ficou parecendo um cavalo’.”

Professora durante o dia, artesã à noite

Professora da rede municipal, Mara dedica as noites e os finais de semana ao artesanato. Para cumprir os prazos das encomendas, conta frequentemente com a parceria da mãe, que também aprendeu a produzir amigurumis ao seu lado.

Os alunos acompanham de perto esse talento. “Muitos já têm alguma peça em casa. Eles adoram ver as fotos dos trabalhos e até já tive uma aluna que começou a aprender porque se interessou vendo o que eu fazia.”

Do hobby ao empreendedorismo

O que começou como terapia acabou se tornando também uma importante fonte de renda. Mara mantém uma loja virtual, comercializa seus produtos pelo Mercado Livre e afirma que nunca falta trabalho.

Entre os campeões de vendas está o urso aviador, muito procurado para decoração de quartos de bebês. Uma das encomendas chegou ao Rio de Janeiro, onde produziu praticamente toda a decoração temática de um quarto infantil após conquistar a confiança de uma cliente.

Outro trabalho curioso foi uma tartaruga confeccionada especialmente para servir de presente de Dia dos Namorados. Para ela, o sucesso do artesanato depende da união entre técnica, criatividade, carinho e uma boa dose de paciência.

O maior desafio, segundo explica, está no constante aumento do preço das linhas e demais materiais, o que exige pesquisa e planejamento para manter os produtos acessíveis aos clientes.

Urso aviador: sucesso de vendas



Mais que um trabalho

Mesmo com o crescimento das vendas, Mara garante que a motivação principal continua sendo o bem-estar proporcionado pelo artesanato. “O artesanato é meu momento de relaxamento, de paz e de calmaria. É quando consigo esquecer os problemas do dia a dia.”

Seu maior sonho é criar um amigurumi totalmente autoral. Enquanto isso não acontece, segue transformando novelos em personagens capazes de despertar sorrisos.

E deixa um conselho para quem deseja iniciar no artesanato: “Corra atrás do seu sonho. Talento a gente conquista com aprendizado e dedicação. Estude, pesquise e se dedique. Tudo dá certo.”

Ao entregar cada peça, Mara espera que algo acompanhe o presente além das linhas e do enchimento. “Quero que as pessoas sintam o carinho com que cada amigurumi foi feito.”

Veja mais sobre a artesã e seus trabalhos no Instagram @mrmonfre

Imagem de capa: Mara Monfré durante confeção de seus amigurumis

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