Última atualização em 03/09/2026, 5h46min por A Trombeta
Faculdades ITES promovem nos dias 11 e 12 de setembro atividades sobre cafés especiais; experiência desenvolvida no campo experimental da instituição alcançou 85 pontos em avaliação de qualidade
Uma cultura agrícola que teve papel decisivo na formação econômica de Taquaritinga e de boa parte da região volta a ganhar espaço, desta vez com uma proposta diferente daquela que marcou o início do século passado. O café reaparece associado à pesquisa, tecnologia, sustentabilidade e à busca por produtos de maior qualidade e valor agregado.
Dentro dessa proposta, as Faculdades ITES realizam nos dias 11 e 12 de setembro, em Taquaritinga, o Dia de Campo Café Sombreado, promovido pelo curso de Agronomia. A programação reunirá produtores rurais, estudantes, técnicos e demais interessados na cultura cafeeira.
Na sexta-feira (11), às 19 horas, será realizada uma palestra sobre comercialização de cafés especiais, abordando possibilidades de agregação de valor e oportunidades existentes nesse mercado. A atividade será realizada na sede das Faculdades ITES, na Praça Dr. Horácio Ramalho, 159, no centro de Taquaritinga.
No sábado (12), a programação prossegue a partir das 8 horas, no Campo Experimental de Agronomia, na Avenida Gagliano Francisco Pagliuso, 455, Vila Rosa. Durante a atividade prática serão apresentadas técnicas e exigências relacionadas à produção de cafés especiais e sua adaptação às condições da região.
Café cultivado sob sombra
Um dos pontos centrais do encontro será o café sombreado, sistema no qual os cafeeiros são cultivados juntamente com árvores ou outras espécies vegetais, criando condições diferentes das encontradas em lavouras conduzidas integralmente a pleno sol.
A técnica pode alterar o microclima da plantação, oferecendo maior proteção contra temperaturas elevadas e interferindo no processo de maturação dos frutos. O sistema também abre espaço para discussões relacionadas à sustentabilidade, diversificação da propriedade e qualidade final da bebida.
As Faculdades ITES mantêm uma lavoura experimental de café na qual os estudantes de Agronomia acompanham diferentes etapas da produção, do plantio à colheita e ao beneficiamento.
O Campo Experimental da instituição possui 72,6 mil metros quadrados destinados ao ensino e à pesquisa agropecuária e reúne cultivos de diversas espécies, entre elas café, cana-de-açúcar, soja, milho, feijão, arroz, hortaliças e frutíferas. Documentos acadêmicos da própria faculdade registram inclusive áreas irrigadas destinadas especificamente à experimentação com café.
Café produzido pelo ITES chega aos 85 pontos
O resultado já obtido chama a atenção. De acordo com informações divulgadas pelas Faculdades ITES, o café produzido na área experimental atingiu 85 pontos na avaliação utilizada para cafés especiais.
A marca ganha maior relevância quando comparada aos parâmetros internacionais de qualidade. Segundo material técnico da Embrapa, cafés com 80 pontos ou mais, dentro da metodologia de avaliação sensorial da Specialty Coffee Association (SCA), enquadram-se no segmento dos cafés especiais. São analisadas características da bebida como aroma, sabor, acidez, corpo, doçura, equilíbrio e ausência de defeitos.
Portanto, um café avaliado com 85 pontos não representa apenas uma experiência acadêmica bem-sucedida: indica a possibilidade de produção de uma bebida de padrão elevado justamente em uma região que possui profundas ligações históricas com a cafeicultura.
De volta às raízes
Falar em café em Taquaritinga significa também voltar a um dos capítulos mais importantes da formação econômica do município.
A cafeicultura esteve presente praticamente desde os primeiros anos de ocupação da região. Relato histórico da Câmara Municipal registra que, ainda no século XIX, José Domingues da Silva teria iniciado cultivo de café na Fazenda Paraguaçu.
Mas foi principalmente com a chegada da Estrada de Ferro Araraquarense a Taquaritinga, em 1901, que a produção ganhou dimensão comercial. Os trilhos facilitaram o transporte e estimularam a implantação de novas propriedades rurais numa época em que o café avançava pelo interior paulista.
Uma pesquisa acadêmica publicada pela Unicamp, baseada em documentos históricos, revela a dimensão alcançada pela cultura: no ano agrícola de 1904-1905, o então município de Ribeirãozinho — atual Taquaritinga — possuía aproximadamente 10 milhões de pés de café, distribuídos por centenas de propriedades rurais. A produção ultrapassava 567 mil arrobas.
Nas décadas seguintes, o café movimentou fazendas, comércio, máquinas de beneficiamento e a própria ferrovia. A importância da atividade extrapolava a atual área territorial de Taquaritinga, alcançando localidades que mais tarde se transformariam em municípios independentes.
Em Santa Ernestina, por exemplo, registros históricos apontam que milhares de sacas de café eram embarcadas pela ferrovia nas décadas de 1930 e 1940. A partir dos anos 1960, entretanto, o café perdeu espaço inicialmente para a citricultura e posteriormente para a cana-de-açúcar. Processo semelhante ocorreu em diferentes pontos desta faixa do interior paulista.
Uma agricultura que mudou
Mais de um século depois, a paisagem agrícola é outra. Dados compilados pelo Observatório Territorial do Sebrae a partir das pesquisas agrícolas do IBGE mostram que, em 2024, as culturas de maior peso na produção agrícola de Taquaritinga eram a cana-de-açúcar, com 48,9%, o limão, com 15,3%, e a laranja, com 10,8%. O café já não ocupa a posição econômica que teve no começo do século passado.
É justamente nesse cenário que experiências como a desenvolvida pelas Faculdades ITES ganham outra dimensão.
O objetivo não parece ser simplesmente recuperar a cafeicultura em grandes extensões, nos moldes do passado, mas avaliar se existe espaço para uma nova cafeicultura regional, baseada em áreas menores, manejo técnico, diferenciação do produto e busca pela qualidade.No mercado de cafés especiais, a lógica também é diferente daquela baseada exclusivamente em volume. Características sensoriais, origem, forma de cultivo, processamento e rastreabilidade podem contribuir para agregar valor ao grão.
Assim, mais de cem anos depois de o café ajudar a impulsionar o crescimento de Taquaritinga e das localidades ao seu redor, a cultura retorna ao debate regional sob uma nova perspectiva: menos quantidade e maior qualidade.
O Dia de Campo promovido pelo ITES poderá ajudar a responder até onde essa possibilidade pode avançar e se o café, além de fazer parte da história da região, poderá novamente conquistar espaço — ainda que em uma escala e com características bastante diferentes — também em seu futuro agrícola.
Imagem de capa: Arte A Trombeta/IA
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