Elucubrações de Primavera – Parte 2

Elucubrações de Primavera – Parte 2

Última atualização em 08/11/2021, 18h40min por A Trombeta

*Por José Saul Martins

Na primeira alta com o intestino soldado dr Cássio tinha me falado que se tivesse que dar chabu, daria nos dez primeiros dias. – Na semana que vem vou a um congresso de proctologia e ficarei alguns dias fora de Catanduva, mas a gente vai se falando pelo whatsapp e você vai me posicionando sobre a sua evolução. Puta que o pariu só faltava dar algum problema ou infecção justamente quando esse médico estiver fora. Estou na capa da gaita – pensei.

Bem já tinha ficado cinco dias internado e era só esperar mais cinco e daria tudo certo para o retorno numa terça-feira, quando tiraríamos os pontos e vida que segue. Os dias foram passando e aparentemente tudo bem a não ser o estufamento na barriga. Estava comendo como um caga-sebo e não sei o que me estufava. Eu que sempre comi de tudo e nada me fazia mal. No décimo dia pós cirurgia estava um pouco apático mas nada assustador. Dr Cássio já tinha voltado. Ufa! Menos mal.

No 11º dia pós cirurgia amanheci estufadíssimo. O zap que já tinha comido na alta todos os dias, naquela manhã foi a mesma coisa. – dr estou estufado e parece que comi uma folha de zinco pelo gosto que sinto na boca – disse a ele pelo zap. Ele pediu para fazer um exame PCR e enviar o resultado urgente pelo aplicativo. Nada tão grave. No domingo que antecedia a terça feira do retorno, após sair do banho, vi na toalha que me enxugava uma mancha de secreção no tecido. Algum ponto deve ter se rompido não deve ser nada. Sempre fui, sou e serei otimista. Talvez seja por isso que saí desse imbróglio. O zap comeu solto pro dr.

Daquele pequeno furinho saía uma secreção purulenta, que foi aumentando e na segunda-feira já manchava uma toalha de rosto em minutos. O beiço do corte foi abrindo e saindo mais daquela merda. A dúvida era essa. Era pus ou fezes? A emenda tinha rompido? Dr Cássio pediu que fosse ainda na segunda-feira para me ver. Fui.

Chegando lá, ele teve que fazer uma cirurgia de emergência e fui atendido por um prestativo médico colombiano. Na hora da consulta, como tinha trocado o curativo (uma toalha de rosto ensopada) e colocado outra, o médico entendeu que não seria algo tão grave, mas precisa que o Dr. Cássio veja, disse ele em seu sotaque castelhano. Dei balão nele não falando que estava vazando muito. Esperei, esperei, esperei…Bem tenho de voltar amanhã mesmo vou embora hoje e pronto. No início da noite dr Cássio fez contato, se desculpou pela impossibilidade de não ter me atendido e me deu um “créu” por eu não ter esperado. O acalmei minimizando o problema. Mas depois vimos que era grave. No outro dia.

Na hora marcada, o Walmir (que foi meu motorista por um bom tempo a quem serei eternamente grato) me pegou e rumamos para Catanduva. Estava mal naquele dia. Moribundo. Naquela terça-feira que deveria retirar os pontos. Que pontos? Minha cirurgia parecia uma genitália feminina (risos hoje ao escrever esse texto). Metade dos pontos externos estavam abertos. No consultório ao me ver naquele bagaço, já me encaminhou para internação URGENTE. Queria saber o que estava acontecendo. Achei que iria corroborar o “créu” do dia anterior. Dr Cássio não fez isso, pois sabia que estava acontecendo e em sua sensibilidade até me acalmou.

Da minha barriga saía uma coisa indecifrável: fezes ou pus? Fui dar com o costado num apartamento destinado aos pacientes do “particular” pois na ala que meu plano cobria não havia vagas e era preciso me internar. Pouco tempo depois ele chegou e alertou que faríamos alguns exames de tomografia para saber como estava a cirurgia e que já tinha falado com o dr. Arlindo (infectologista) e me aplicaria antibióticos para infecção. Uma possiblidade. E se fosse merda? Teria de me abrir novamente. Puta que pariu! Justo comigo (não que desejasse aquilo para outro). Após a tomografia descobrimos que a merda não era tão grande. A cirurgia estava intacta. A emenda foi e está sendo show. No entanto descobriram algumas colônias de pus em minha cavidade abdominal e que estavam vazando pelos “caminhos” da luz e buscando uma saída expurgavam pelo pornográfico corte. Aquilo que era uma menarca começou a vazar muito. Quando ainda estava na ala vip o enfermeiro Moises veio me fazer curativo, que era feito de hora em hora. Era madrugada. Ele apertou minha barriga e saiu muita coisa. Muita mesmo. Mais de litro de pus. Logo vagou um quatro na ala que fazia jus ao meu plano. Adeus ar condicionado.Passei uma noite de cão com um senhorzinho que gemeu muito. Na sexta-feira dr Cássio tinha acertado com o médico do ultrassom que fariam algumas punções para retirar as colônias de pus. Tinha de ser feito no ultrassom pois iriam monitorando a localização das colônias e retirariam a maior parte delas com uma seringa. Naquela manhã recebi a visita dos meus compadres Mauro e Sandra. Um enfermeiro entrou pediu licença e disse que me levaria para o procedimento. Mal sabia eu.

Me deitaram naquela maca estreitinha do ultrassom. Foi juntando gente. Uma garotada vestida de branco. Meu xará estava lá também. Dr. José era o residente do dr Cássio que me acompanhou todos os dias. Um médico recém formado, boa gente pra caramba que morava em Itapolis e estava fazendo residência em gastro. O médico do ultrassom me explicou que fariam uma anestesia local e após uma incisão pequena, introduziriam uma agulha para retirar as malditas colônias. Senta o pau doutor. Uma jovem médica ficou ao meu lado e segurou minha mão. A coisa seria feia.

Anestesia feita o médico do ultrassom fez um pequeno buraco. Doeu um pouco. De soslaio vi o tamanho da agulha acoplada a uma seringa gigante. Tinha uns 15 centímetros. Tô fodido. E estava (pelo tamanho do instrumento quase que literalmente). Claro que a anestesia tinha sido no couro e quando a agulha entrou na colônia que mais parecia uma vila, uma cidade, uma metrópole doeu muito. Cutuca de um lado e do outro uma dor intensa rasgava meu abdômen, minha alma comecei a chorar e gritar. O médico do ultrassom suava. Meu xará ao lado. Os (as) jovens médicos(as) espiavam por cima. A moça grudada não mais em minhas mãos, mas segurava meu antebraço debruçada em cima de meu corpo dolorido e doente. O médico do ultrassom dizendo que já estava acabando. Mentira dele. Continuava naquela luta em tentar tirar de meu interior a grande Tóquio. Colônias…

Dr José segurando a minha mão direita pedia ajuda a outro jovem médico no pialo e colheu uma amostra do pus que vazava. Os gritos eram tão intensos que assustou a galera que estava esperando para realizar ultrassom. Disseram que vários pacientes que estavam na fila “vazaram na braquiária”. Até ontem não encontraram (hoje pode ser que apareçam). O médico do ultrassom suando em bicas, fez sinal de negativo com cabeça e disse ao meu xará – as colônias (leia-se Tóquio) estão duras demais e não é possível retirá-las com a seringa. Eu disse à mocinha, a médica que segurava a minha mão esquerda do outro lado daquela maca lazarenta, que nas alturas do campeonato (procedimento) já estava abraçada comigo, que parassem com aquilo por Deus. Iria morrer de dor. Pararam. Mesmo com uma dor imensa pude perceber a decepção nos profissionais que estavam dentro daquela pequena sala de ultrassom. O mesmo enfermeiro que me trouxe para o suplício me levou de volta. O semblante dele também era de decepção e a minha de que ele era filho da puta do carrasco. Claro que não era.

O resultado

De toda aquela malograda tentativa de abreviar minha cura, uma coisa ficou clara naquela amostra que o dr. José tirou da minha barriga através de um exame laboratorial: aquelas malditas colônias (quatro) em meu abdômen eram da tal Klebsiella pneumoniae carbapenemase. Após o resultado, rapidinho tiraram o senhorzinho resmusgão de meu quatro e fiquei sozinho. Graças a Deus podia dormir mesmo expurgando aquele pus e conter na porta de meu quarto um pequeno cartaz impresso em folha sulfite o símbolo infectante biológico (aquele que parece três bodes bebendo água numa tina redonda). As enfermeiras entravam em meu quarto parecendo mergulhadoras de tanto apetrechos. Proibida a entrada. Sobreviveria a uma mortal bactéria que mata 50% dos acometidos.? Aí começa uma outra fase que será contada na parte 3. Viver vale a pena.

*José Saul Martins é diretor do jornal e site A Trombeta

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