Semente de jabuticaba é poderosa aliada na prevenção da obesidade

Semente de jabuticaba é poderosa aliada na prevenção da obesidade

Última atualização em 12/08/2021, 16h26min por A Trombeta

Caroço da fruta é rico em elagitaninos, substâncias que possuem ação anti-inflamatória e são eficazes contra a obesidade

Além de ser deliciosa, a jabuticaba, fruta nativa da mata atlântica brasileira, tem demonstrado ser uma aliada das pessoas que sofrem com excesso de peso. Substâncias químicas – os compostos fenólicos do tipo elagitaninos – presentes principalmente nas sementes da jabuticaba possuem ação anti-inflamatória e auxiliam a prevenir a obesidade. Essa foi a conclusão de uma pesquisa feita no Laboratório de Compostos Bioativos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP.

Atualmente, o Brasil, a exemplo de outros países, vivencia uma epidemia de obesidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a prevalência de casos no mundo duplicou entre 1980 e 2014. Neste período, o número de adultos com sobrepeso já ultrapassava a marca de 1,9 bilhão e o de crianças, menores de cinco anos, chegava a 42 milhões. Assim, estudos que contribuam para reverter esse quadro são sempre bem-vindos, afirma a nutricionista Gabriela Cunha, responsável pela pesquisa que deu origem a uma dissertação de mestrado na FCF.

Os compostos fenólicos (CFs) são substâncias encontradas em alimentos de origem vegetal e sempre estiveram relacionados ao benefício da saúde. Dentre as principais fontes de CFs estão os chás verde e preto, o cacau, o vinho e frutas como a jabuticaba. As propriedades mais conhecidas destes compostos são o seu grande potencial anti-inflamatório e a ação antioxidante.

Embora outros estudos já tenham comprovado a eficácia da jabuticaba para a saúde humana, o trabalho da nutricionista foi focado na semente da fruta, que demonstrou ter altas concentrações de compostos fenólicos do tipo elagitaninos. A partir deste ponto, Gabriela procurou avaliar a influência dessas substâncias na prevenção da síndrome metabólica: a obesidade associada à diabete tipo 2 e ao aumento do colesterol sanguíneo.

Camundongos obesos

Para simular um quadro mais próximo da realidade de pessoas com excesso de peso e que sofrem com o comprometimento de sua saúde, Gabriela reproduziu, em laboratório, uma dieta semelhante à adotada pela população em geral. Durante oito semanas, a pesquisadora induziu 60 camundongos a consumir uma dieta com alto teor de gorduras saturadas e sacarose. Dois grupos tiveram a dieta complementada com compostos fenólicos totais da jabuticaba, porém um deles recebeu doses diárias de todos os CFs da fruta, enquanto o outro grupo recebeu quase todos estes CFs, exceto os elagitaninos da semente. Um grupo seguia dieta balanceada e o quarto, apenas dieta rica em gorduras e açúcares (sem os CFs).

Ao final deste período experimental, o grupo de animais que recebeu todos os compostos fenólicos da jabuticaba, ao mesmo tempo em que consumia gorduras e açúcares, manteve o quadro de saúde semelhante ao de animais magros, que consumiram dieta saudável durante o mesmo período. Já os animais que receberam os polifenois, sem os elagitaninos, associado ao consumo de gorduras e açúcares, tiveram a saúde tão comprometida quanto o quarto grupo. Na opinião da pesquisadora, o principal resultado de seu trabalho “foi a confirmação de que os elagitaninos têm papel crucial na prevenção da obesidade”.


Pesquisa no laboratório

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Frutas brasileiras são ricas em antioxidantes e anti-inflamatórios

As frutas nativas brasileiras são fontes de substâncias antioxidantes e anti-inflamatórias, bem como de uma grande diversidade de compostos fenólicos, os quais podem propiciar importantes benefícios para a saúde humana. Essa é a conclusão de um estudo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba. Em parceria com a Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da Universidade de Campinas (Unicamp), a pesquisa da engenheira de alimentos Jackeline Cintra Soares avaliou o potencial antioxidante, anti-inflamatório e a composição fenólica de dez frutas nativas brasileiras ainda pouco conhecidas pela ciência, como o cajá e o cambuci.

“O Brasil possui condições climáticas adequadas para o desenvolvimento de um grande número de frutas nativas”, aponta Jackeline Soares. “Essa biodiversidade tem se tornado um caminho promissor para a descoberta de novos compostos bioativos capazes de ser utilizados na formulação de alimentos funcionais e medicamentos”, completa. O estudo tem orientação do professor Severino Matias de Alencar, do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq.

Segundo a pesquisadora, os compostos fenólicos apresentam ações específicas, podendo atuar como antioxidantes e anti-inflamatórios, assim prevenindo doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares e a diabete, por exemplo. “Nosso objetivo foi avaliar a capacidade desativadora de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio, atividade anti-inflamatória in vitro e in vivo e a composição fenólica. A técnica utilizada foi a espectrometria de massas de alta resolução, realizada em dez frutas nativas brasileiras.”

Assim, foram mapeados o araçá-boi (Eugenia stipitata), o cambuití-cipó (Sagerectia elegans), o murici vermelho (Bysonima arthropoda), o murici guassú (Byrsonima lancifolia), o morango silvestre (Rubus rosaefolius), o cambuci (Campomanesia phaea), o jaracatiá-mamão (Jacaratia spinosa), o juquirioba (Solanum alterno-pinatum), o fruta-do-sabiá (Acnistus arborescens) e o cajá (Spondias mombin L.). As amostras foram coletadas no Sítio Frutas Raras, localizado na cidade de Campina do Monte Alegre (SP), exceto o cajá, que foi coletado na Fazenda Gameleira, município de Montes Claros de Goiás (GO).

Diversidade de compostos fenólicos presentes nas frutas pode propiciar importantes benefícios para a saúde humana. Na imagem, o cajá – Foto: Divulgação / Esalq

Antioxidantes

Foram identificados compostos fenólicos pertencentes à classe dos flavonoides (catequina, epicatequina, rutina, quercetina glicosilada, kaempeferol glicosilado, quercetina, procianidina B1 e procianidina B2), subclasse do ácido hidroxibenzoico (ácido gálico) e subclasse dos ácidos hidroxicinâmicos (ácido cumárico, ácido ferúlico e cafeico). Das frutas analisadas, o araçá-boi, cambuití-cipó, murici vermelho, morango silvestre e cajá foram as que apresentaram as maiores atividades antioxidantes e/ou anti-inflamatórias, cujo perfil fenólico indicou a presença de 18 compostos no araçá-boi, 32 no cambuití- cipó, 26 no murici vermelho e 20 e 11 compostos no morango silvestre e cajá, respectivamente.

Nas frutas cambuití-cipó, murici vermelho e morango silvestre também foi possível a identificação e quantificação de antocianinas, sendo que no cambuití-cipó foi identificada a kuromanina e a mirtilina. Já para o murici vermelho e o morango silvestre, somente a kuromanina foi encontrada. “Esta é a primeira vez que se relata a presença destas antocianinas no cambuití-cipó e murici vermelho. Portanto, as frutas nativas estudadas apresentam compostos bioativos com atividades antioxidante e anti-inflamatória e, quando consumidas regulamente como alimentos funcionais, poderiam ajudar na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis.”

Morango silvestre – Foto: Divulgação / Esalq

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Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) publicado em 2017 recomenda um mínimo de 400 gramas de frutas e vegetais por dia (excluindo batatas e outros tubérculos) para a prevenção de doenças crônicas, como doenças cardíacas, câncer, diabete e obesidade, especialmente em países menos desenvolvidos.

Ainda segundo Jackeline Soares, “existe a necessidade de se buscar novos alimentos que, além de nutrir, apresentem atividades biológicas que possam inibir ou amenizar danos oxidativos relacionados a processos inflamatórios, limitando assim a progressão de certas doenças de origem metabólica e degenerativas prevalentes, principalmente quando se considera que estamos em um país detentor de uma das maiores biodiversidades do Planeta”.

Fontes:
Ivanir Ferreira/Jornal da USP
Caio Albuquerque / Divisão de Comunicação da Esalq / Jornal da USP
Imagem capa: Site Oficial da Festa da Jabuticaba de Sabará

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