Pesquisadores desenvolvem nova forma de cultivar batata-doce de polpa alaranjada, com alto valor nutricional

Pesquisadores desenvolvem nova forma de cultivar batata-doce de polpa alaranjada, com alto valor nutricional

Última atualização em 03/08/2021, 6h58min por A Trombeta

A batata-doce biofortificada desenvolvida na USP e no Instituto Agronômico de Campinas apresentou cerca de dez vezes mais betacaroteno que as batatas-doces convencionais, de polpa branca ou creme

A batata-doce, destaque na dieta de jovens que desejam ganhar massa muscular por ser uma fonte saudável de carboidrato, tem tido uma função social mais nobre. A batata de polpa alaranjada, que possui cerca de dez vezes mais betacaroteno que as batatas-doces convencionais, vem contribuindo para o combate à deficiência nutricional de milhões de pessoas em países subdesenvolvidos. É essa a nova cultivar brasileira que será lançada em breve pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, e pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC). A batata-doce de polpa alaranjada é resultado de uma pesquisa realizada pelas duas instituições, por meio de técnicas de melhoramento genético convencional, visando à biofortificação de alimentos para torná-los mais nutritivos. O clone IAC-1063 foi o genótipo que mais reuniu, na média, um conjunto de características nutricionais e produtivas que buscavam os pesquisadores.

“Dentre as principais cultivares existentes de batata-doce, que contêm significativa quantidade de vitaminas e minerais, a de polpa alaranjada é a que apresenta elevado teor de betacaroteno, um pigmento natural que funciona como antioxidante e é precursor da vitamina A no organismo”, explica ao Jornal da USP Fernando Angelo Piotto, professor e pesquisador do Departamento de Produção Vegetal da Esalq. Nas batatas-doces de polpa alaranjada, a concentração de betacaroteno pode chegar a 110 µg/g (microgramas de betacaroteno por grama de raízes frescas), enquanto que, na batata convencional, a de polpa branca ou creme, a concentração raramente chega a 10 µg/g. Os resultados gerados por essa pesquisa constam da dissertação de mestrado de Hellen Cristina da Silva, orientada pelo professor Piotto.

No Brasil, as batatas de pele rosada, roxa e creme, com polpa amarela ou branca, são as mais consumidas; em outros países, essas cultivares são direcionadas às indústrias alimentícias para fabricação de produtos processados como farinhas, cremes e doces. Sobre a biofortificação, o pesquisador explica que a mesma pode ser feita por meio de melhoramento genético convencional de plantas ou através da biotecnologia para geração de novas cultivares mais nutritivas.

Vários países com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) utilizam a biofortificação para criar produtos agrícolas para suprir carências nutricionais das camadas mais pobres da população. A batata-doce biofortificada, pelo fácil manejo agronômico e alto valor nutricional, tem sido um desses incrementos de políticas públicas nutricionais. Segundo o pesquisador, a fortificação de alimentos com vitamina A e ferro é uma estratégia de alguns países da África e da América Latina para combater a deficiência de vitamina A e ferro, principalmente em crianças. Dietas com escassez de betacaroteno, ferro e zinco podem provocar anemia, redução de capacidade de trabalho, problemas no sistema imunológico, retardo no desenvolvimento e até a morte.

A pesquisa

A produção inicial de sementes foi feita a partir do cruzamento de seis cultivares diferentes. Os primeiros experimentos, entre os anos de 2016 e 2017, foram conduzidos pelo IAC, em Campinas (SP), sob a coordenação do pesquisador  Valdemir Peressin, sendo as etapas posteriores, de 2018 a 2020, conduzidas pela Esalq e IAC, em áreas experimentais nas regiões de Campinas, Piracicaba (SP) e Mococa (SP).

Desses experimentos, ano a ano, a cada nova colheita, foram sendo selecionadas as melhores mudas, que foram replantadas a cada ciclo, dando origem aos 16 clones com potencial para se tornarem novas cultivares, e que possuíam as características que interessavam aos pesquisadores. As mudas originárias destes últimos clones foram replantadas no campo e posteriormente analisadas. Todos os clones tiveram bom desempenho nos testes, porém, o clone IAC-1063 se destacou na média. “Tanto nas análises individuais quanto nas realizadas em conjunto, as batatas-doces originárias destes 16 clones obtiveram resultados positivos em suas características, variando de acordo com a região e a época em que as plantas tinham sido cultivadas”, explica Piotto.

Foto: V. Peressin

Algumas batatas-doces, por exemplo, eram mais estáveis quanto à produtividade, item importante a ser considerado no sistema produtivo porque diz respeito à adaptabilidade da planta ao ambiente e à região em que será cultivada. Outros clones continham maior teor de matéria seca, o que determina, em parte, a qualidade para consumo e também o tempo de conservação pós-colheita. Outros ainda continham menores teores de matéria seca e maiores concentrações de betacaroteno.

Ao buscar a média dessas características, os pesquisadores chegaram ao clone IAC-1063 como sendo o melhor entre os 16 analisados. O clone IAC-1063 reuniu conjuntamente alto porcentual de matéria seca nas raízes, coloração alaranjada, estabilidade de produção e sabor. “De maneira geral, esta nova cultivar possui a doçura e o sabor compatíveis às principais cultivares comerciais de batata-doce disponíveis no mercado.”

O clone da batata-doce de polpa alaranjada – IAC-1063 possui raízes alongadas e uniformes do tipo elíptico, casca avermelhada e polpa alaranjada. É rica em betacaroteno (aproximadamente 100 microgramas de betacaroteno por grama de raízes frescas) e tem um potencial produtivo superior a 35 toneladas por hectare, além de teor de matéria seca em torno de 25%. A colheita desta cultivar pode ocorrer entre 120 a 150 dias após o plantio, na primavera e no verão, e de 150 a 180 dias no outono e inverno.

Segundo o professor Piotto, neste momento, o clone IAC-1063 está em um laboratório do IAC passando por um processo de limpeza clonal para eliminação de fungos, vírus e bactérias que foram se acumulando ao longo dos plantios-testes no campo. Esse processo é importante para obtenção de ramas saudáveis para serem disponibilizadas aos produtores, o que deve ocorrer até o início de 2022. Assim, ano que vem, o consumidor poderá ver a batata-doce de polpa alaranjada nas gôndolas dos supermercados.

A tese Seleção de clones de batata-doce de polpa alaranjada, de autoria de Hellen Cristina da Silva, foi defendida em maio de 2021 sob orientação do professor Fernando Angelo Piotto.

Mais informações: e-mail fpiotto@usp.br, com o professor Fernando Angelo Piotto;  hellen.cristina@usp.br, com a pesquisadora Hellen Cristina da Silva; e valdemir.peressin@sp.gov.br, com Valdemir Peressin

Fonte: Jornal da USP

Compartilhar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.