Todos os caminhos levam à casa de Nossa Senhora Montesina

Todos os caminhos levam à casa de Nossa Senhora Montesina

Última atualização em 07/09/2026, 17h54min por A Trombeta

Promessas, agradecimentos e uma tradição transmitida ao longo dos anos movimentam estradas da região na véspera do dia dedicado a Nossa Senhora da Conceição Montesina

Passos que se repetem ano após ano, promessas cumpridas, agradecimentos por graças alcançadas e histórias que atravessam décadas. Desde sexta-feira, 4/9, estradas e caminhos da região passaram a receber um movimento cada vez maior de romeiros com um mesmo destino: o Santuário Diocesano de Nossa Senhora da Conceição Montesina, no Distrito de Aparecida de Monte Alto.

A peregrinação deverá atingir seu ponto máximo entre esta segunda-feira, 7/9 e a terça-feira, 8/9, dia dedicado à Virgem Montesina. Neste ano, o calendário favoreceu uma movimentação antecipada: o feriado da Independência, nesta segunda-feira, formou uma sequência com o fim de semana e a celebração religiosa de terça, permitindo que muitos devotos programassem suas caminhadas antes da data principal.

Todos os anos, milhares de fiéis de diferentes municípios seguem até Aparecida de Monte Alto. A manifestação religiosa tornou-se tão representativa que a peregrinação ao Santuário foi reconhecida em 2021 como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial de Monte Alto, por meio da Lei Municipal nº 3.720.

Neste ano, porém, os números serão formados por milhares de histórias particulares. Algumas delas foram acompanhadas por A Trombeta durante os dias que antecedem a celebração.

De moto ou em família, o importante é estar presente

De Catanduva, integrantes do grupo Trilheiros da Fé mantêm há cinco anos a tradição de visitar Aparecida de Monte Alto durante os festejos de Nossa Senhora da Conceição Montesina.

Entre os participantes estão os casais Livna Neves e Victor Neves e Beatriz Timóteo e Rafael Gagliard. Desta vez, Beatriz e Rafael deixaram as motocicletas de lado por estarem acompanhados do pequeno Hugo, mas não abriram mão de participar da peregrinação.

Para Livna e Victor Neves, a experiência teve um significado ainda mais especial. O casal participou pela primeira vez e veio até o Santuário para agradecer à Virgem Montesina.

A presença dos Trilheiros mostra também que a romaria não se restringe aos peregrinos que chegam caminhando. Motociclistas, ciclistas, grupos familiares e devotos utilizando diferentes meios de transporte se misturam aos que enfrentam quilômetros a pé para chegar ao distrito.

Trilheiros: Rafael Gagliard, Hugo, Beatriz Timóteo, Livna Neves e Victor Neves em Aparecida de Monte Alto

Uma promessa repetida há 20 anos

Outra história que liga Catanduva, Fernando Prestes e Aparecida de Monte Alto começou há aproximadamente duas décadas.

Na época, Carolina Simão trabalhava como enfermeira em Fernando Prestes. Durante uma visita de familiares à cidade, suas tias Marli e Marisa, acompanhadas por amigos, decidiram fazer o percurso até o Santuário.

Entre elas estava Adriana Callegari, que enfrentava um grave problema de visão. O grupo fez então uma promessa a Nossa Senhora da Conceição Montesina: caso a graça fosse alcançada, percorreriam a pé o trecho entre Fernando Prestes e Aparecida de Monte Alto tantas vezes quanto fosse possível. Segundo Adriana, a graça foi alcançada.

Desde então, a caminhada tornou-se compromisso no mês de setembro. Já são cerca de 20 anos repetindo a peregrinação.

Atualmente, o grupo reúne Paulo Roberto, Carolina Simão, Marli Simão, Marisa Simão, Ana Maria Callegari, Ernesto Lucio Callegari, Helio Roveri e Adriana Callegari.

Mais que a distância percorrida, a história mostra uma das características mais marcantes da romaria à Montesina: uma promessa individual que, com o passar dos anos, transforma-se em tradição coletiva.

20 anos de peregrinação: Paulo Roberto, Carolina, Marli, Ana Maria, Ernesto (Tim), Adriana, Lúcio e Marisa

Treze dias seguidos no caminho

Entre os romeiros que partem de Fernando Prestes, uma das histórias que mais chamam a atenção neste ano é a de Juari Eduardo Borgonovi.

Ele assumiu o compromisso de fazer a peregrinação a pé entre Fernando Prestes e Aparecida de Monte Alto todos os dias durante os festejos.

A caminhada começou em 29 de agosto e deverá se repetir até 10 de setembro. Ao final, serão 13 dias consecutivos de peregrinação, realizados como forma de agradecimento por uma graça alcançada.

Enquanto milhares de pessoas escolhem um dos principais dias para realizar o trajeto, Borgonovi transformou todo o período da festa em sua própria peregrinação.

Seis quilômetros para agradecer

Também de Fernando Prestes, José Luiz Soleira Junior percorreu a pé os aproximadamente seis quilômetros até Aparecida de Monte Alto. A razão também foi o agradecimento: a saúde de sua esposa Marina e a chegada de sua filha, em novembro.

Aline Rodrigues, moradora de Monte Alto, escolheu outro caminho. Ela foi até Fernando Prestes, onde residem seus familiares, para iniciar dali a caminhada até Aparecida, igualmente em agradecimento por uma graça alcançada.

São motivações distintas que terminam no mesmo lugar e ajudam a explicar por que, durante estes dias de setembro, pequenas estradas normalmente tranquilas ganham grupos de pessoas caminhando durante a manhã, tarde, noite e até madrugada.

Aline Rodrigues, Juari E. Borgonovi e José Luiz Soleira Jr. após a chegada no distrito

Caminhos recebem estrutura de apoio

A dimensão regional da peregrinação pode ser percebida também pela estrutura formada para receber quem caminha.

Ao menos três eixos utilizados pelos romeiros contam com pontos de apoio: os trajetos provenientes de Monte Alto, Fernando Prestes e Cândido Rodrigues.

No percurso tradicional entre Monte Alto e Aparecida, o Guia do Romeiro 2026 aponta nesta segunda-feira, 7/9, cinco estruturas antes da chegada ao distrito, além de um sexto ponto no Portal de Aparecida. Pela apuração de A Trombeta, os trajetos provenientes de Fernando Prestes e Cândido Rodrigues também possuem pontos de apoio aos peregrinos.

A rota oficial partindo de Monte Alto tem aproximadamente 18 quilômetros. Para os dias de maior movimento, foram organizadas ações envolvendo pontos voluntários e oficiais de apoio, atendimento de saúde, segurança e transporte para o retorno dos peregrinos.

O Guia do Romeiro orienta quem realiza as caminhadas noturnas a utilizar lanternas, roupas claras e materiais refletivos, além de caminhar em grupos e, sempre que possível, fora da pista. Guarda Civil, Polícia Militar e Polícia Rodoviária participam das ações de segurança.

Uma devoção com 178 anos de história

O destino de todos esses caminhos guarda uma história iniciada em 1848.

Segundo os registros históricos de Monte Alto, Flávio Antônio de Oliveira construiu a primeira capela após uma graça atribuída a Nossa Senhora da Conceição. A primeira celebração religiosa no local ocorreu em 8 de dezembro daquele ano. Posteriormente, a festa foi transferida para 8 de setembro, quando a Igreja Católica celebra a Natividade de Nossa Senhora.

A devoção possui ainda uma particularidade: segundo a Prefeitura de Monte Alto, trata-se da única devoção mariana no mundo sob o título de Nossa Senhora da Conceição Montesina. Em 2026, a festa chega aos seus 178 anos.

A programação religiosa começou em 29 de agosto e segue até quinta-feira, 10/9. Nesta terça-feira, 8/9, dia principal dos festejos, o distrito deverá receber o maior fluxo de visitantes e peregrinos. Mas, para muitos deles, a celebração começou muito antes de enxergarem as torres do Santuário.

Começou quando decidiram cumprir uma promessa. Quando calçaram o tênis ainda de madrugada. Quando reuniram novamente o mesmo grupo depois de 20 anos. Quando trocaram a motocicleta pela companhia do filho pequeno. Ou quando decidiram repetir, durante 13 dias, o mesmo caminho.

São histórias diferentes, percorrendo estradas diferentes, mas que, neste início de setembro, convergem para um único destino: Nossa Senhora da Conceição Montesina, em Aparecida de Monte Alto.

Imagem de capa: José Luiz Soleira Junior

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