Uma história de professor

Uma história de professor

Última atualização em 23/03/2021, 6h16min por A Trombeta

Por Tânia Manjerão*

Bom dia, professora – diz o inspetor de alunos, distraído com a tramela do portão. Um sutil aceno ao entrar, o silêncio do corredor ocasionalmente interrompido pelas conversas e balouçar de mochilas dos que chegaram cedo e se reúnem em pequenos grupos no pátio. A cidade não é grande, pouco se ouve da rua além do tiritar dos pássaros. A professora, após um gole de café, retira de sua pasta uma folha com a relação de aulas e leva o óculos ao rosto. Estranho hábito que perdura, já sabe muito bem em qual sala deverá ir. O relógio de parede indica meia hora de antecedência, então senta-se para terminar de planejar as aulas da próxima semana.

Seus pais vieram do interior, agricultores, vendedores, tudo que lhes caísse às mãos; a mesma ancestralidade de mais da metade de seus alunos. Também, nos seus dias, muitos deixavam a escola pra trabalhar, por necessidade ou dogmas familiares. Bate o olho nas linhas riscadas da lista de chamada: nesse semestre já se foram dois. Corre as páginas grampeadas até a última matéria dada e circunda o título com o lápis. A longa lista de nomes da caderneta e os números que a acompanham salientam as evidências aos olhos da professora – as últimas notas não são boas. Uma atividade leve pra semana que vem – pensa –, talvez pedir pra que tragam fotografias de família para que façamos uma análise histórica, dá pra encaixar nessa próxima matéria. E começa a desenvolver o plano, à caneta, pois a impressora da secretaria está há duas semanas sem tinta.

Não tem fotos de sua infância em casa, os raros álbuns que sobrevivem estão na casa de sua mãe, num aglomerado de residências alguns quilômetros fora da cidade. Uma visita poderá ser interessante, talvez consiga trazer uma foto ou duas para a aula. O atraso sistemático da gerência educacional em incorporar a veloz dispersão de novos hábitos e rotinas do seu público alvo tira a atenção da sala frequentemente. Sempre que pode a professora se vê associando o cotidiano próximo às suas aulas, esgueirando-se entre o imediatismo ofegante das crianças.

A mão rabisca palavras e procedimentos como uma autômata, quando o ribombo do sinal invade a sala. Recolhendo seus papéis e engolindo o restante do café, a professora dirige-se para o pátio, onde distingue a fileira desordenada de humaninhos que cumprimentará em breve. Será que todos possuem fotografias dos anos passados? Estaria a vida daquele tempo ao alcance da memória? Bom dia, turma – disse, enquanto fechava a porta.

Não sabia que se tornaria professora quando abandonou a escola antes do ensino médio. O transcorrer dos anos a proporcionou inúmeras e diferentes experiências que a tornaram extremamente capaz de conduzir uma sala de aula e, quando finalmente se viu formada, o trabalho se deu naturalmente. Conhecendo as dificuldades de se manter na escola como grande parte de seus alunos vivenciam hoje, possui maneiras vibrantes de mantê-los minimamente compenetrados. A História que leciona não apenas vive em palavras escondidas em páginas, mas enxerga-a ao seu redor e em constante desdobramento. Se sente aliviada por conseguir fazer os que a ouvem perceber o mesmo – a vinda do parente distante décadas atrás, como contada por um aluno, traz à sala o contexto social dos anos quarenta de forma palpável, relacionando memórias afetivas com o que o livro didático impessoalmente traz. A professora encontrou nisto sua vocação.

Em seu tempo, o chiclete que vira sendo grudado sob a carteira seria remunerado com algumas reguadas. Puni-los para que? Dissocia-los da responsabilidade pelo bem comum para ensina-los a apanhar? Sabe que não botará o menino pra fora, o pede para botar o chiclete no lixo e se desculpar à sala, à quem a carteira pertence. Espera que, se não História, aprenda a sobreviver em comunidade dignamente.

Eclode o sinal, despertando uma tímida correria rumo ao portão. Ao fim do dia, o alívio das últimas despedidas encontra-a exausta. A sala é boa, mas esse não é seu único trabalho. Ao menos, redigido parcialmente em sua cabeça, está o plano das próximas aulas. Quando o relógio lhe permitir outra meia hora, porá mão à caneta e o registrará. O caminho de casa transita entre ensaios mentais de aulas futuras e o desconhecido estado de sua vida em casa, incógnito desde que saíra pela manhã. Contas aproximadas de compras no mercado somadas a inúmeras outras cifras a transpassam por alguns minutos. Um receio maternal ao pensar que muitos dos que deixara à pouco, agitados com o fim da aula, não conseguem efetuar básicas operações matemáticas, enquanto responsabilidades precoces da vida adulta beiram às suas portas. Terão tempo? Tive eu, tempo?

*Tânia Manjerão é professora de História na Rede Pública de Ensino do município de Fernando Prestes

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