No desmantelo da tarde

No desmantelo da tarde

Última atualização em 13/09/2021, 8h02min por A Trombeta

“Lembro um flamboyant vermelho
No desmantelo da tarde
Que projetava a viagem” Alceu Valença (1992).

Por: José Saul Martins

A mesma estrada velha que liga Fernando Prestes à Agulha, mencionada na primeira reportagem da série “Contando histórias e Refazendo Caminhos” está nesta pauta. Bem mais velha que a citação de uma das estrofes de Alceu Valença em sua impecável composição “Sete desejos”  esta matéria tem a intenção de remeter o leitor a um contexto sertanejo e andanças dos desbravadores do interior de São Paulo.

Um dos recortes destes 12,5 quilômetros terá a versão de Oswaldo José de Almeida, com 91 anos, nascido e criado nas imediações deste caminho. Pelos idos da primeira metade do século passado ele conta que os domingos eram dias para descansar e de raias, com seus cavalos e cavaleiros. A diversão era pouca aos lavradores que labutavam as margens daquele estradão que vinha de longe com suas boiadas, boiadeiros, poeira e “causos”.

Era domingo, dia de raia. O tio Zeca Aranha explicava ao menino franzino que atuava como jóquei nas corridas:

– fica tranquilo se concentra no seu cavalo, que o Arlindo (Pereira) já sondou os demais e disse que você ganha com uma cabeça de vantagem. Aproveita que o tio está aqui vigiando o cavalo e vai alí na moita mijar o medo.

Seu Oswaldo conta essa passagem do tio e seus olhos marejam. Uma das principais raias era em Aparecida de Monte Alto e muitos jóqueis, proprietários de cavalos, familiares, moças, experts e curiosos se dirigiam para lá. O Arlindo Pereira, mencionado na fala de Zeca Aranha era morador de Aparecida, dono de cavalos e apaixonado por corridas em muitas ocasiões espionava os concorrentes para saber o desempenho nos treinos e depois investir nas apostas.

Muito pouco, ou quase nada resta as margens tendo como referência temporal a narrativa de seu Oswaldo. Até mesmo as capelinhas?

– as capelinhas já existiam e algumas foram caindo com o tempo – disse o seu Oswaldo que emendou – e também não sabemos ao certo quem morreu nas santa-cruzes. Hoje são três capelinhas no trajeto que resistiram aos janeiros. As capelinhas dos quilômetros 1,2 e 2,0 há informações.

A noção da utilidade desse caminho por Oswaldo de Almeida está ligado ao transporte de mercadorias e principalmente gado que saía de Minas Gerais e rumava para o noroeste paulista para engorda e comercialização. As estradas boiadeiras e nas cidades, as ruas boiadeiras.

As comitivas que faziam parada na Fazenda São Francisco, hoje imediações da propriedade de David Brentan, conduziam até mil cabeças de gado. Oswaldo de Almeida morou na Fazenda São Francisco na época do proprietário Januário Sousa Pinto  onde paravam as comitivas e suas boiadas para descanso e alimentação do gado e dos peões. Esse transporte era árduo e talvez por isso é tão lembrado pelos compositores e artistas que cantavam e cantam as proezas das boiadas.

Uma comitiva era organizada e havia uma hierarquia rígida. O capataz ou comissário era quem comandava todo o trabalho. O ponteiro ou sinueiro era um peão experiente que conhecia os caminhos e estradas, que ia à frente da boiada tocando o berrante nos momentos apropriados, para cadenciar a marcha ou acalmar o gado e dar sinais para os demais peões. Os rebatedores ou fiadores eram os peões que cercavam o gado fazendo com caminhassem sem dispersar. Os peões da culatra eram aqueles ficavam no final da boiada para não deixar gado para trás. Havia ainda os peões da “culatra manca” que tocavam os bois que tinham problemas para acompanhar a marcha da boiada, por cansaço, ferimento ou doença ou alguns que se perdiam.

Antes das saídas da comitiva, seja da origem ou das paradas, o cozinheiro saía conduzindo os cargueiros (mulas e burros) com suas bruacas, nas quais levava os mantimentos e tralhas de cozinha, até encontrar um local para parar, que podia ser uma fazenda, sítio ou até mesmo a margem de um rio.

E por falar em bois e boiadas há um fato que liga uma das capelinhas. Alfredo Passolongo agricultor e proprietário de um sítio situado a margem da estrada é um “zelador” da santa-cruz do quilômetro 2. Por ocasião de reportagem de A Trombeta veiculada em 22/05/2018. Passolongo contou que aquela capelinha foi erguida em memória a uma menina morta por um boi bravio de uma boiada que passava pelo estradão. Na mesma reportagem Pedro Segura (in memoriam) contou que a capelinha do quilômetro 1,2 foi feita em homenagem ao “Negrinho carteiro”. Eis o lead da mencionada matéria:

“- Até logo dona Augusta. Inté semana que vem – despediu-se o moleque carteiro saltando sobre sua égua Pombinha.

– Vá com Deus Sebastião. Até semana que vem – não sabia ela que aquelas cartas seriam as últimas do mensageiro Sebastião: o “Negrinho carteiro”.

Naquele mesmo dia, na primeira década do século passado, quando o mensageiro, completando sua rotina entregando cartas pelos sítios e fazendas da região de Fernando Prestes, entrou na estrada principal que ligava à Vila de Agulha tomou um baque no peito deixando a Pombinha cavalgar sozinha até perceber que não estava montada por seu cuidador e fiel companheiro.

O diálogo e os detalhes da cena narrada acima são fictícios, mas a história é real. Segundo a transmissão oral de pessoas mais velhas versa sobre esse estúpido homicídio que aconteceu em Fernando Prestes ainda em seus primórdios, quando um mensageiro que fazia a distribuição das correspondências pela zona rural foi morto a tiro por um fazendeiro.  O assassino estava em sua propriedade comprando uma “carabina” e, querendo testar a arma, carregou-a e vendo um cavaleiro que vinha pela estrada resolveu atirar, não pensando na consequência de seu ato paranoico e assassino. O cavaleiro, o “Negrinho carteiro”, como era carinhosamente chamado na região. Nesse local, onde o carteiro foi morto a tiro, foi erguida uma capelinha ou santa-cruz…”.

As vendas

Uma das vendas lembrada por seu Oswaldo é a “Venda do Pinheiro”. Lazaro Pinheiro de Almeida  tinha um estabelecimento no entroncamento entre a Estrada Velha de Agulha com o caminho que ligava Cândido Rodrigues a Santa Adélia. “Meu irmão Eduardo Pinheiro comprou uma propriedade naquela encruzilhada e cedeu uma área para que o nosso tio fizesse uma venda”, contou Oswaldo.  Ali se vendia um pouco de tudo segundo os padrões de consumo rural e de caminhantes da época. Feijão, querosene, farinha, fubá, carne seca e é claro aguardente.

A outra venda da estrada, foi do casal Izabel Segura e Euclides (Cride) Calanca. Ficava um pouco antes sentido Fernando Prestes/Agulha (hoje propriedade de Wilson Angélico) e começou a funcionar depois do fechamento da Venda do Pinheiro. Pedro Calanca, filho de Izabel e Cride lembra de um fato ocorrido na venda de sua mãe.

Certa vez uns empregados da fazenda do Lilo Magalhães (Carlos Magalhães Pinto), que também ficava nas imediações da Serra do Itaimbé, vieram até a venda comprar uns mantimentos e tomar uns goles. No entanto não encontraram a dona Izabel e nem o Cride que estavam trabalhando na roça, pois tocavam o estabelecimento juntamente com a labuta na agricultura. Encontrando a venda fechada foram embora de goela seca e sem mantimentos. Alguns dias depois reclamaram com a vendeira sobre a falta de atendimento. Dona Izabel de pronto disse aos homens que a chave da venda ficava numa greta da verga do batente da porta e, que podiam pegar e beber o que quisessem e na saída deixarem o dinheiro na gaveta. E assim ocorreu por muito tempo e nunca faltou mercadoria, nem aguardente e nem o dinheiro da paga.

Habitações

Poucas habitações dessa época ficaram. As margens dessa estrada  não há muitas construções remanescentes desse período mencionado por Oswaldo.  O tema da primeira reportagem desta série foi a casa de Paulo Simonetti de 1929. Uma outra construção, que pertenceu e pertence até hoje aos Pires na confluência das  ruas José Agustoni e João da Cruz Santana no perímetro urbano de Fernando Prestes que outrora também foi uma venda.  A sede da hoje Fazenda São Luiz (Luiz Borges), antiga propriedade dos Tebar também está em bom estado de conservação.  No Sítio Palmeiras (Bento Luchetti Junior) existe uma casa que remete a época dos Frares com seus porões e laterais avarandadas. Nas proximidades de onde hoje é propriedade de seu Oswaldo no Sitio São Judas do Itaimbé tem uma casa restaurada que pertence a Sérgio Malacrida Junior que era de seus avós. O prédio que abrigava a “Venda do Pinheiro” ainda existe e pertence hoje a Luiz Fumagalli, mas foi descaracterizado do original por várias reformas e trocas de proprietários.

Na primeira metade da “Estrada Velha de Agulha”, tendo como partida Fernando Prestes, existem outras habitações em uso, mas, bem mais novas que as mencionadas acima.

A ida para a cidade de muito e muitos moradores de sítios e fazendas das margens da estrada se mudaram. Assim também foi o caso de seu Oswaldo, que recém casado, com dona Jandira veio para Fernando Prestes deixando a roça e trabalhar na instituição financeira Caixa Econômica do Estado de São Paulo, onde se aposentou como gerente de agência. Após a viuvez recebe os cuidados dos filhos Donília, José Roberto e Djair em sua residência em Fernando Prestes entre as idas e vindas de seu Sítio São Judas do Itaimbé, que não por coincidência, fica nas proximidades da “Estrada Velha de Agulha”. No entanto, a memória é viva de seu quintal na Fazenda São Francisco e parodiando Alceu em “Sete desejos” que abriu esse texto seu Oswaldo em tom de nostalgia lembrou o flamboyant vermelho no desmantelo da tarde…

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