Elucubrações de Primavera – Parte 3

Elucubrações de Primavera – Parte 3

Última atualização em 22/11/2021, 18h20min por A Trombeta

Por José Saul Martins*

Nunca fui ruim de boca. Comia e como de tudo. Após a minha reclusão na “solitária” do quarto 12 combinei com dr Cássio para deixar minha dieta aberta caso precisasse comprar alguma comida. A que o hospital servia era uma delícia, não sei como tem gente que reclama da boia, exceto o “Ki Suco” (os mais velhos lembrarão).Apesar de estar arregaçado tinha compromissos com A Trombeta, pois ficaria ali naquela “suíte” confinado pelo menos uma semana para tomar os antibióticos necessários para minar a KPC. Depois voltaria ao aconchego de minha casa ou na pior das hipóteses na tumba junto com meu pai em Agulha. Não pensava nisso. Será?

Daquela ferida pornográfica em minha barriga continuava saindo uma enorme quantidade de secreção purulenta. As enfermeiras faziam o curativo de hora em hora e colocavam uma espécie de absorvente gigante sobre o rasgo. Aquilo ensopava em minutos e por sugestão minha continuei usando as toalhas de rosto sobrepostas que cobria metade da barriga. Molhava tudo.

Não sei se conseguiria fazer o jornal impresso para publicações oficiais que tinham prazos para circulação. Pedi ajuda aos universitários (literalmente). A Marcinha minha amiga de longa data da faculdade de jornalismo morava em São José do Rio Preto e como as visitas eram restritíssimas devido a alto grau de contaminação falei com o enfermeiro chefe sobre a presença dela. Ela chegou numa manhã. Ao me ver deitado fechou a porta que sempre ficava fechada, após deixar sua bolsa na outra cama que estava vazia (claro) e contrariando as normas me deu um abraço. Após as palavras de conforto em meu ouvido, pegou meu notebook e improvisamos na mesa de refeição uma redação de jornal. Ajeitei o controle para que meu leito ficasse confortável e em seguida ela foi até sua bolsa pegou um frasco de vidro e aspergiu pelo quarto e sobre meu corpo doente. – é água ungida – disse ela. Apesar de ter um cheiro bom tive a certeza que meu caso era complicado pois ela também sabia de tudo. Após limpar o rosto e os olhos lacrimejantes com uma toalha pegou um caderno e uma caneta – vamos ao trabalho. Meu note já estava pronto e abri o programa de editoração gráfica que montava e monto o jornal impresso. Ela ficou ao meu lado e percebi que ela não sabia patavinas de Adobe Page Maker. Na faculdade tínhamos aprendido a fazer jornal impresso, mas não existia a informática. Era tudo manual desde a redação dos textos na máquina de escrever, a diagramação na folha quadriculada (hoje é editoração eletrônica), composição no linotipo e a impressão. Ela não fazia jornal. Se dedicou a assessoria de imprensa, redação de jornais elaborando textos e a documentários em vídeos. Lascou. Teria de fazer sozinho. Lamentou não ter podido me ajudar. Ela sabia que não sabia. Veio me ver. Talvez se despedir. Fiquei um pouco chateado, mas feliz por ter ganhado palavras de conforto e um grande abraço.

Naqueles dias fiquei amigo de todos os profissionais da enfermaria. A enfermeira Fabiana, uma das tantas que curaram minha ferida fétida. Sempre alegre numa sexta-feira me confidenciou que após deixar o trabalho iria dançar.- ah seu José hoje vou sair pro “crime” – disse brincando. Tá certo Fabiana após risos e curativo feito. Dançar. Que vontade de dançar.

Frequentemente dr Cássio pedia exames tomográficos para acompanhar as colônias de KPC alojadas no interior de meu abdômen. Num desses dias, enquanto aguardava numa cadeira de rodas no hall da enfermaria que me levaria ao tomógrafo vi as pranchetas com as fichas dos pacientes. Manjei onde estava a minha e bisbilhotei. Na verdade minha ficha era um calhamaço. Logo após a folha de rosto, estavam os relatos diários de minha evolução: “paciente estável, bem humorado, se alimentando normalmente, isolado, PA normal, batimentos normais, temperatura ok, fazendo uso de …” (claro que não lembro os nomes dos antibióticos que tomei né, mas eram de última geração contra a KPC). Estou bem na fita. Me achavam bem humorado (risos). Estava fodido, mas ficar de mau humor não resolveria porra nenhuma.

Os resultados não eram bons. As colônias não diminuíam. Como colocar a Cidade do México em Fernando Prestes. Ainda não consegui entender porque chamavam de colônia uma metrópole como aquelas da minha barriga. Já tinha enchido o saco de ver programas matutinos na TV do quarto 12. Não ligava mais a TV. Estava a olhar pela grade da janela a Rua Belém sentado na cama vazia ao lado do meu leito. Uma grade protetora de janela com ferros retorcidos, coisas do padre Albino. Estava na parte velha do hospital no segundo andar. Tinha e tem uma funerária bem em frente, além da Panificadora Belém. Ranquei. Vá de retro. Como fazia todos os dias, as vezes duas vezes, dr Cássio chegou e me viu apreciando o quadrante da rua vista pela janela gradeada do padre Albino. Sentou ao meu lado me abraçou.- como está campeão? Vixi! Tô tinindo. Nada. Estava uma merda. Já tinha passado os sete dias e nada de evoluir. Tínhamos de entrar em mais sete dias de remédios. Sem contar que a boia do hospital não me apetecia mais. – dr estou com uma vontade gigante de comer um X-Bacon com refrigerante, esse purê do cacete não esta descendo mais. Canja de galinha voltei a comer em 2020. Credo.- amanhã virá um representante do plano aqui te entrevistar, porque eu pedi para que passe por algumas sessões na câmara hiperbárica – disse dr. Cássio. Que catso é isso? Apesar de ele ter me explicado o Google comeu na alta.

“A Oxigenoterapia Hiperbárica ou OHB é uma modalidade terapêutica na qual um paciente é submetido à inalação de oxigênio puro em uma pressão maior que a pressão atmosférica, dentro de uma câmara hermeticamente fechada com paredes rígidas”. Nossa! Que será isso?

A ferida vazando aos montes. As meninas (enfermeiras) limpando a cada duas horas. Os banhos engalfinhado com o Zulemá (apelido que dei ao fiel pau de soro, que não era de madeira e sim de ferro até com rodinhas que enroscavam como os carrinhos de supermercado…- risos). O apelido ao pau de soro foi em homenagem a meu amigo servente de pedreiro Zulemar Vergani com quem labutei na construção civil durante minha adolescência. O pau de soro é um trem grande, bem maior que a gente e o Zulemá era bem maior que a gente e era fiel companheiro. Minhas veias já estavam arrebentadas. O scalp do soro tenho ranço até hoje e mais ainda do esparadrapo que me depilavam a cada troca. Filho da puta de esparadrapo.

A comida do hospital tão apetitosa nos primeiros dias estava ruim. Não era boa. Será que tinham trocado de cozinheira? Claro que não. Estava mal e nada me apetecia. Pedi a Paula que mandasse comida de casa. Ficava esperando alguém que vinha de Fernando Prestes com minha marmita caseira. Não podia mancar com a descrição na prancheta “…paciente se alimentando bem”. E por falar em Paula ela foi primorosa em minha recuperação. Muito dedicada. Imprescindível. Gratidão eterna.

Lá pelo 18º dia de internação em luta com a KPC, a enfermeira chefe do plantão veio me falar que a câmara hiperbárica tinha sido aprovada e no dia seguinte eu iria ao complexo do Hospital Emilio Carlos “viajar de submarino”. Putz não sou marinheiro e nem pescador, exceto as duas vezes com Fiorindo Costa, o Tito Junta, o Adilson e João Paulo. Fomos de bote.

Por volta das 10h uma simpática enfermeira trajada com um escafandro (zoeira). Estava devidamente paramentada para não ser contaminada e não contaminar os outros pacientes com a mortal KPC que eu lutava com todas as forças. – seu José vou acompanhar você até ao EMI (abreviação do Hospital Emilio Carlos) para a sessão de hiperbárica – bora uai.

Uma ambulância me esperava no hall de entrada do Pronto Socorro do Hospital Padre Albino. O calor daquela primavera era insuportável. Me ajeitaram na maca do veículo. Uma GM Montana adaptada, daquelas doadas pelo governo. Útil, mas feita para anão. Com meus 184 centímetros de altura fiquei espremido naquela merda. A enfermeira do escafandro foi na frente com o motorista. Vi pela janelinha que ela tirou o capacete quando sentou no banco da frente.

Um profissional com um uniforme verde nos aguardava numa ala meio que isolada no EMI. A enfermeira disse que assim que terminasse a sessão me buscariam. O homem de uniforme verde gentilmente me levou a uma ampla sala com vidraças que visualizava o exterior do complexo. Via os pássaros e a folhas balançando, mas não ouvia o canto nem sentia a brisa do vento.- seu José creio que o senhor nunca passou por esse procedimento – tinha visto no Google (risos) – vou colocar o senhor dentro dessa câmara, fechar e ficaremos (eu ficaria, ele não) por 20 minutos. Depois que fechar vou acionar o sistema e não poderei abrir repentinamente (era preciso realizar a descompressão), se senhor sentir algo me avise acenando pelo vidro ou pelo sistema de som da câmara.

Nossa! Muito legal. Se precisar cagar será necessário esperar sair a pressão desse tubo que estou entrando. Tô lascado. Me deitou numa maca mecânica que escorregou para dentro da câmara. A tal da câmara hiperbárica era uma panela de pressão em forma de um cilindro com 2 metros de comprimento e uns 40 centímetros de diâmetro. Apertadíssima. Quando estava entrando vi a tampa. Era uma tranca com uma trava de rosca exatamente como aquelas panelas de pressão da dona Vanir. Lembrei o nome: Lares. Onde estava a minha mãe naquele momento? Nem me visitar podia devido a sua idade. Passamos por maus momentos eu e a dona Vanir. Ela temia que partisse antes dela. Dentro daquela câmara senti a pressão aumentando, uma coisa esquisita, a sensação de ouvido entupido. O homem de verde tinha me falado para abrir e fechar a boca que o mal estar diminuía. Pouca coisa adiantou e quando parecia que iria explodir eu soltava um “pum” pelo ouvido e melhorava. Ele estava ao meu lado (de fora) e perguntava com gesto se estava bem. Vixe! Ótimo. Tinindo. Na segunda sessão descobri sozinho que engolir em seco o “pum” saía numa boa pelo ouvido. Onde já se viu peidar pela orelha.

Fiz só mais uma sessão e tive alta após um ciclo de antibiótico. A Marina foi me buscar. Saí pela portaria da Rua Belém com 20 quilos a menos, ainda vazando pela ferida com uma matulinha de roupas e um punhado de ampolas de antibióticos que tomaria no Posto de Saúde de Fernando Prestes por mais sete dias. As colônias ainda estavam ativas e talvez isso resolveria (talvez). Era a metade da primavera de 2017 e tinha muita coisa a vencer pela frente e seguirá na parte 4. Saí de lá muito mal de “boca” sem apetite e apático contrastando com aquilo que constava em minha ficha na enfermaria naquele dia que bisbilhotei. Viver era e é preciso.

*José Saul Martins é diretor do jornal e site A Trombeta

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